Tempo de necessidade

O tempo partiu. Correu pelos campos, buscou o horizonte e se desfez ao encontrar uma lembrança e um suspiro de saudade que duraram para sempre. O homem nem sempre encontra piedade em suas lembranças e disfarça, esconde os anos perdidos em pensamentos temerosos e cabelos brancos. Sabendo que a mudança é imprevisível, ele se conforma com o agora, o conforto de um olhar que um dia vai partir e deixar o amor invisível a todos.

O mundo deposita toda carga em você, mas você ficou fraco com o tempo. O péssimo habito de se apaixonar te fez escravo de um destino sanguinário. Um intimo pesar se expande em sua vida. Toques são mortais. Sua carne deseja o que não pode ter.

A duvida que nos segura em algum lugar

A duvida que nos protege é a mesma que nos deixa cego. Encolhidos, como animais com medo da chuva, sentimos o farfalhar das folhas lá fora sucumbindo a inevitável mudança. A mudança que nos trás vontade de mudar junto com o desagradável medo. E não existe um rosto como o seu espelhando a verdade para nós.

Gigantes com medo de cair. O erro já cometido muitas vezes nos comete a sermos mais precavidos e menos audaciosos. Perdemos a chance de encontrar o que queremos mais um dia. E que dia pacato e indiferente para nós. Os velhos fins não justificam mais os métodos. Mais um dia se foi.

Perdemos a chance de nos encontrarmos só porque temos medo de nos molhar. Chove sangue lá fora e aqui dentro chove ausência em um espaço sem fim. Criando imagens se foi o sol e nem recebemos seu calor. Foi-se rápido demais. Não sobraram horas para mudarmos o mundo.

Nosso medo é tão pessoal que não conseguimos contar para ninguém. Mesmo caminhando la fora existe o medo de nos encontrarmos em possíveis lugares coberto de dejetos e desilusões do ultimo encontro que tivemos com nós mesmos. Resta saber para onde você vai e se seu loiro cabelo vai me fazer sair daqui. Da minha prisão, onde a voz da incerteza ecoa nas paredes. Do meu medo de errar novamente.

Intimidade

Uma vez me disseram que a intimidade tem haver com pessoas que passam a noite junto, mas eu discordo. Para mim tem mais haver com dois olhares que se cruzam, por acaso, sem controle, implorando e suplicando um pelo outro. Pedindo por uma chance de serem desvendados pelo então parceiro com quem nunca se cruzou, alheio, em uma esquina qualquer. São aqueles que despertam uma infinidade de pensamentos e mistérios sem uma noção de tempo ou lugar. Procuram encontrar perdido, pois sempre souberam aonde esta tudo, menos certos pensamentos intrigantes que crescem em pessoas apaixonadas.

E eu sou um apaixonado. Meus pensamentos são tão íntimos, mas a maioria das pessoas sabe e você também, mas não entende que existem tantas formas de se amar alguém e que eu mudei muito nestes anos. Te encontrar foi tão fácil, pois eu não esperava por isso. Agora estou inconformado com a facilidade que mudei meu jeito de ser.

E muitas vezes o que parece doce é na verdade amargo, porque aquele sorriso que você me mostrou desbotou-se e se tornou uma pintura da minha infância que traz imensa saudade. Saudades da paz que você tirou de mim, pois agora eu luto todo dia para te encontrar.

Você não lembrar que na vida teve um amigo tão intimo como eu. Mas eu lembro de cada palavra que você me contou só com aquele olhar.

Longos dias de espera parte 3

São 6 horas da manhã e ele não quer sair do quarto. Dentro da escuridão o mundo se torna de fácil aceitação. A realidade é moderada pelas paredes que a limitam.

Mas ele tem algo a fazer hoje. Não digo trabalhar ou sonhar, pois isso ele faz todo dia. Ele precisava fazer algo que não sabe o que é nem que precisa fazê-lo.

E ela também. Emocionalmente indisposta e propositalmente mantendo distancias das pessoas. O que ela deve encontrar ao cruzar a linha da solidão e olhar para algo que sempre esteve ao seu lado? Sempre esteve ao seu lado.

E o homem cruzando com ela na rua lhe arranca um sorriso sem querer do rosto. O rosto que estava fechado pela ingratidão se acendeu por um instante. Mas ele não sabe disso. Para ela, porém, aquele rapaz pareceu estranhamente familiar aos seus olhos.

Pouco a pouco eles se comunicavam. Diante de um muro que os separava, eles descobriam os segredos um do outro. E assim começou algo diante deles. Um segredo. Um propósito para o que poderiam chamar de “tudo”.

Discutiam o quão pouco se conheciam e o quanto precisavam se revelar. O quanto ele queria mostrar para ela. Ela sempre linda e esperando para passar por ele novamente. Na mesma rua onde a solidão não existia.

Longos dias de espera Parte 2

É um cara qualquer. O personagem secundário da trama. Deixado de lado em momentos onde realmente não faria a diferença.

Ele, talvez inconscientemente, vive sonhando por ai.

A noite dorme profundamente, mas de dia sonha a cada passo sem perceber. E isso o faz diferente e talvez o faça também solitário.

Foi preciso viver por alguns anos para descobrir que não era a pessoa mais adequada para as coisas. Logo, possuía um emprego mediano e poucos talentos escondidos. Não sabia lidar com as coisas de forma simples.

Com sua família era querido, mas escondia coisas que não valiam a pena serem contadas só para denegrir sua pessoa. Imaginava que sempre viveu as sombras de seu irmão, a quem invejava e odiava. Por isso, possuía amigos que muitas vezes confiava mais que o normal para se confiar em alguém.

Era quando chegava a noite que consegui se concentrar por um momento. E fazer o que achava ser a única coisa que o diferenciava de pelo menos metade das pessoas que conhecia.

Escrevia sobre si e sobre o mundo e gostava quando as pessoas se identificavam com algo que saia de sua mente impaciente.

Mas era tudo sonho mesmo, sempre.

Longos dias de espera Parte 1

Ela se veste de preto em mais um dia comum.

Finalmente pronta (ou não), ela se prepara para encarar o mundo que a abandonou, que simplesmente a jogou para junto da desilusão.

“Mas ilusões são estratagemas criados necessariamente para se diferenciar a realidade do que não é real.” E assim ela parte para outro dia. Sem saber se isso é certo ou incerto: “Certo, pois é um dia normal como qualquer outro. Incerto, exatamente pelo mesmo motivo.”

Segue pelo caminho preparado há tanto tempo. Linda garota. Cabelos longos, negros. Olhos verdes, pequenas esmeraldas tocadas pelo cansaço de ver o mundo tantas vezes e, mesmo assim, ainda brilhando. Jeito de andar que chama a atenção.

Chega ao seu destino sentido o peso em suas costas, que cresce ao longo do dia.

Volta para a casa bem tarde e volta, enfim, para o que ama.

Uma lágrima quase chega a cair de seus olhos. Sua filha a espera com aquele sorriso no rosto que só as crianças podem ter. Tão familiar de quando ela mesma se olhava ao espelho e, no entanto novo, intocado pelo mundo.

O peso de seu coração diminui, mas o de suas costas não.

Faz um chá para relaxar. Analisa o aroma do chá em cada detalhe e se lembra por um momento do que lhe traz prazer.

Deita-se, para dormir enquanto ainda pode.

Sinestesia

Consigo sentir o sabor das palavras que saem de sua boca. Tudo o que você diz é solido e tem um sabor marcante. Doce como gentis juras de amor e amargos como quando falamos de realidade. Você faz a realidade parecer maligna perante seu ilusionismo. As vezes você parece irreal demais, sim. Todas essas palavras coloridas saindo de sua boca, uma após uma e alcançando o céu.

Vejo seus olhos e consigo ouvir o que eles dizem em suas cores.

Podem suprimir todas as boas histórias do mundo em dois pontos em sua face que dizem tanto sobre você e isso é tudo que eu quero ouvir por enquanto.

Posso ouvi-los quando se abrem e dizem que o mundo não é tão ruim assim. Escondem-se e não dizem o que pensam sobre mim. Ironicamente não consegue me ver de verdade.

Sinto o aroma nas curvas de seu corpo. Cada tipo de toque explode em um perfume diferente. Alguns são explicáveis e comparáveis com algo que já existe. Outros são particulares, são seus, foram criados por você. E esses de certa forma possuem o maior encanto entre todos os outros. Algo que se sente só de te tocar. Aroma puro de um amor complexo.