Traga o sol de volta

Lágrimas tão doces quanto seu perfume caem sobre seu lábios entreabertos enquanto você não sabe o que dizer. Como a água do rio rompendo uma barreira de rochas e areia, sua lógica e pensamento foram sobrepujados pela emoção e eu pude ver esse momento, quando a chuva começou a cair em seu rosto e seus ombros ficaram pesados.

Sinto as circunstâncias perfurarem meu peito. O silencio congelou tudo ao nosso redor. Um arrepio percorre minha espinha quando vejo a neve se acumulando sobre seus cabelos loiros e lentamente tornando-os brancos. O céu esta escurecendo.

Não sinto mais a presença de vida no ar. Suas lagrimas desarmaram meus sentidos. Nunca havia te visto fraquejar, nunca, sempre com um sorriso demonstrando o quanto maravilhosa você era, e agora? O que será do por do sol? Ele não voltara a nascer amanha? E agora? Suas lagrimas vão secar com o tempo?

Não há o que se esperar. Como um leve movimento, assim como o movimento de um pincel, eu tento encontrar as corres em seu rosto. As cores certas. Enxugo suas lagrimas e procuro o sol que sempre esteve tão próximo e agora se esconde, se esconde nesse frio insuportável.

Por um segundo o tempo parou e agora meu coração nunca será o mesmo. Por um segundo o sol se pós.

Por um segundo você escondeu o dia.

Volte a sorrir.

Todo Outono

Não direi que a dor passou, nem a memória. De você lembro todo dia mesmo sem ter te conhecido. Sempre que o outono esta chegando posso imaginar sua voz, seu rosto e de certa forma meu estomago se contorce, sinto meu corpo quente, começo a tremer. Lembro-me de folhas e da sua cama te engolindo, como o céu noturno, e você, se desfez entre as estrelas. Você trouxe a primeira chuva de lagrimas do outono.

Você era tão jovem e tão cheia de presença. O mundo inteiro pareceu sentir sua falta naquele dia. Alguns disseram que a tristeza nunca ia passar, mas para mim foi diferente. Esbocei um sorriso. Minha forma de dizer que os dias vazios se foram.

Então eu descobri que morbidez e paixão tem algo em comum: dão-me vontade de viver, e viver mais intensamente, continuar minha busca pelo irreal. Eu olho nos seus olhos e minha alma grita “APROVEITE O DIA”, o correto e o confuso agora estão encobertos pelo sonho, vale tudo pelo sonho agora e não existem mais crimes, não existe culpa.

Por favor, não me veja como egoísta. Não pretendo usar sua queda como minha ascensão. Apenas quero que no futuro esse dia represente renascimento. O renascimento das velhas folhas que caíram.

Ametista

Um símbolo gravado com o nome do sol de da lua protege aquilo que resta de bom dentro de mim. Aquilo que resta de antigo, oprimido e simplório. A glória do que foi preservado todo esse tempo. Coisas que só você sabe e mais ninguém. O tempo em seu apogeu tentou abalar meu corpo, minha ternura, meus sonhos... e especialmente tentou retirar minha força. Coisas que só você viu e mais ninguém, ninguém sonhou em ver.

Por horas tento me restabelecer ao chão, arruinado, sofrendo de delírios e da sedutora vontade de mudar, mudar para viver uma vida mais fácil, porem, mais pálida, sínica e seca, uma vida longe do que realmente sou, artificializada para ser suportável, sem plenitude. Mudar o que eu sou seria a maior amostra de fraqueza e indignidade. Seria como ceder a ultima desgraça cometida pelos tolos.

E então, seus olhos estavam se fundido com os meus em meio ao terror e fracasso. Seus olhos, chuvas e raios. Violetas, espelhados como cristais. Frágeis e ao mesmo, transbordando paixão. Sua alma, quebradiça, tingiu o mundo, pintou seu retrato através de mim. E agora? Meu corpo se move para seus braços sem ser perturbado, sem ter medo de ser negado e eu sinto as ondas empurrarem seu corpo ao meu. Vida, enfim! A cura para os meus medos veio de você e trouxe junto mais um dia feliz.

Os dias que me fazem escravo

São 5h08 da manhã e as luzes da cidade continuam acessas, pelo menos enquanto eu olho para elas. Você esta ali ao lado, dormindo, se fingindo de pequena em uma cama crescida, esboçando a inocência que sempre passa despercebida em seu rosto. Nunca ouvi seu subir e descer de escadas e nunca soube como você entrou.
A cidade é tão dura, mas aqui do alto ela se torna tão pequena e humilde, um espetáculo para quem prefere, ao invés de dormir, se sentir rei por alguns minutos antes de repetir aquilo que te faz escravo do cotidiano. Observo em silencio e logo me viro, assustado, temendo por um segundo que você fosse engolida pelo seu próprio ninho e o que se resta fossem apenas alguns fios de cabelo vermelho, enrolados, aninhados em seu travesseiro. É hora de fechar as cortinas e me unir aos seus sonhos. Posso então sentir a suavidade de cada adorno da seda branca que você esta usando e sentir sua respiração. Com um suspiro seu eu pude me certificar que você não é boneca feita por mãos habilidosas, mas ainda não tenho certeza se não é anjo.
La fora o dia esta para chegar. Posso ouvir os homens ascendendo à realeza, mas continuo recolhido para você não se sentir sozinha. Deixarei você se levantar primeiro dessa vez para prevenir que seus olhos verdes se percam entre os meus antes de serem tocados pela luz do dia e serem verdadeiramente acariciados. Pode usar meu perfume e vestir minhas roupas se isso te deixar mais confortável, pois essa é a maneira de eu estar sempre com você, mesmo quando estou te esperando aqui deitado. Essa é a maneira de eu estar com você,mesmo sendo um escravo do meu próprio dia.

O ciclo em vozes

Ela me disse.
A razão.
Parei de olhar para o horizonte e encurtei meus passos.
Senti a insegurança me encurralando e na respiração o medo de falhar.
A dor insuportável no abdômen e o estomago se remexendo.
Ele me disse.
O desapego.
Tranquei meu coração envolto em correntes e o enterrei no solo.
Joguei a única chave que restou ao vento, em um deserto sem fim.
Coloquei meus óculos escuros para esconder o fraquejar dos meus olhos.
Então, ouvi alguém em meio à multidão.
Ouvi algumas bobagens sobre a vida ser bela.
Ouvi a musica preenchendo o ambiente.
Ouvi algo sobre a ultima chance de encontrar o amor.
Ela me disse.
Você.

Nada do que você quis ouvir

Eu nunca me importei em cair nas armadilhas de uma mulher qualquer,
mas agora percebo
que o maior perigo é me deixar levar pelo seu encanto
e a verdade, um espanto
que se revela na solidão
quando me encontro pensando
em te esquecer novamente.

Ela possui um aroma que me faz revelar minha alma
e junto revelar estranhos medos,
e sou enfático em dizer
que meu maior medo é perder
a segurança que um segredo pode me dar
quando não desejo me encontrar

Revelar a ela o que ela não queria ouvir
ou por um tempo quis,
e agora não faz questão
pois ela descobriu o que procura
e para a vastidão do meu mundo,
virou as costas e partiu então.

Não sou quem ela procura aqui
meu pior constrangimento
depois de testemunhar sua confissão,
me fiz crer que este era o momento
para enfim esquecê-la
se nem isso posso, então
irei amortecer minha queda com palavras
que expressem um pouco do que guardo.

O lamento do bardo

O caminho de um bardo às vezes se desprende de sua razão e o leva pra longe daquilo que sempre procurou. Quando se entrega a uma paixão e se deixa consumir, sua alma chega tão perto do fogo apenas para sentir o calor e acaba se queimando. Sua canção soa triste e sua poesia torna-se rancorosa.

Todas as palavras, canções e estrelas apelidadas com o nome de sua amada não superaram o inevitável. A terrível inevitável corda que enforca seu pescoço. A punição por sua inocência e odor de confusão do ar. Um crime que ele certamente não cometeu.

Agora rumo ao esquecimento ele se lembra de tudo que fez. Tão longe ela estava e suas palavras não mudaram sua mente. Ela preferiu acreditar no que nunca foi dito. Se suas palavras não tiveram a capacidade de mudá-la , quem dirá suas ações ou seu olhar? Ela não vai querer olhar nos olhos e ver um homem fraco e descrente, mesmo sendo isso, talvez, apenas a visão que ela criou para ele, para assegurar que ele não alcançaria tão facilmente seu coração.

De qualquer esse tempo serviu ao bardo para lhe mostrar que deve acreditar em seus instintos e que meses e anos não importam tanto assim no tempo. O tempo apenas serve para nos fazer esperar. E criar armadilhas como esta.

“Estas não irão fortificar nossos laços. Nem acredito que serão gravadas em sua memória e também pouco acho que serão de grande importância assim como todas as outras.”

De fato, o bardo espera a banalização dessas palavras assim como o mundo em si. Ele sabe que um dia haverá de parar de sangrar. No momento em que trocar sua harpa por armas e o amor por esquecimento, ai sim, talvez lembre do que ele disse.

“Estamos presos em nossas mentes, para sempre.”